“Está escrito na Bíblia.” Essa frase é muito comum. E, de fato, a Sagrada Escritura possui uma autoridade única para a fé cristã. Mas existe uma pergunta que precisamos fazer antes de concluir qualquer coisa a partir de um versículo: o que esse texto realmente quer dizer?
Ler a Bíblia não significa simplesmente abrir uma página, encontrar uma frase e aplicá-la imediatamente à nossa vida. A Sagrada Escritura é Palavra de Deus, mas foi escrita por autores humanos, épocas determinadas, utilizando línguas, culturas e gêneros literários próprios. Por isso, compreender a Bíblia exige mais do que saber ler suas palavras: exige aprender a interpretá-las corretamente.
A Igreja ensina que, para compreender a Sagrada Escritura, precisamos considerar aquilo que Deus quis revelar por meio dos autores sagrados. Como afirma a Constituição Dogmática Dei Verbum, para descobrir sua intenção é necessário levar conta, entre outras coisas, os diferentes gêneros literários e as formas de expressão próprias de cada época e cultura.
Palavra de Deus palavras humanas: Retomemos algo fundamental dos artigos anteriores: a Bíblia é Palavra de Deus palavras humanas. Deus é o autor da Sagrada Escritura, mas os autores sagrados também são verdadeiros autores. Por isso, ao ler um texto bíblico, precisamos considerar duas dimensões inseparáveis: o que o autor humano quis comunicar e o que Deus quis revelar por meio dele.
Isso explica por que a Bíblia utiliza diferentes formas de linguagem. Um Salmo é poesia e oração; uma parábola utiliza uma narrativa para transmitir um ensinamento; uma profecia possui uma linguagem própria; uma carta apostólica foi dirigida a pessoas e comunidades. Não podemos interpretar todos esses textos como se tivessem sido escritos da mesma maneira.
Isso também nos ajuda a compreender a diferença entre sentido literal e literalismo. O sentido literal procura descobrir aquilo que o autor sagrado realmente quis afirmar. O literalismo, por outro lado, pode transformar expressões poéticas ou simbólicas afirmações que o próprio texto não pretende fazer.
A Bíblia deve ser lida na fé da Igreja: Aqui encontramos uma característica fundamental da compreensão da Sagrada Escritura. Não podemos interpretar ou fazer análises pessoais da Bíblia isoladamente da Tradição Apostólica e do Magistério da Igreja.
A Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição estão intimamente unidas, pois procedem da mesma fonte divina e constituem um único depósito da Palavra de Deus confiado à Igreja. A própria Escritura foi recebida, transmitida e conservada dentro da comunidade de fé fundada sobre os Apóstolos.
Por isso, a Igreja recebeu também a missão de interpretar autenticamente a Palavra de Deus. Esse encargo foi confiado ao Magistério vivo da Igreja, exercido pelo Papa e pelos bispos comunhão com ele. Isso não significa que o Magistério esteja acima da Palavra de Deus. Pelo contrário: está a seu serviço, conservando fielmente o depósito da fé e protegendo-o de interpretações que o deformem.
Por isso, o cristão é chamado a ler e meditar pessoalmente a Bíblia, mas não a atribuir ao texto qualquer significado que desejar. O Espírito Santo, que inspirou a Escritura, não pode contradizer a fé que Ele mesmo transmitiu à Igreja.
A riqueza dos sentidos da Escritura: A tradição da Igreja reconhece ainda que a Sagrada Escritura possui uma grande riqueza de sentidos. O sentido literal procura compreender aquilo que o autor sagrado quis comunicar. A partir dele, podemos reconhecer também os sentidos espirituais: o sentido alegórico, que ajuda a perceber como as Escrituras apontam para Cristo; o sentido moral, que orienta nossa vida; e o sentido anagógico, que eleva nosso olhar para a realidade eterna e para a consumação da salvação.
Um exemplo tradicional é Jerusalém. Ela é, primeiramente, uma cidade histórica. Mas, à luz de toda a Escritura, pode também apontar para a Igreja e, sentido anagógico, para a Jerusalém celeste, a realidade definitiva da comunhão com Deus.
Essa riqueza mostra que a Bíblia nunca deve ser reduzida a uma coleção de frases isoladas.
Não tire um versículo do contexto: Um dos grandes riscos da leitura contemporânea é transformar a Bíblia um conjunto de frases motivacionais. Encontra-se um versículo bonito, publica-se nas redes sociais e, muitas vezes, esquece-se completamente seu contexto.
Antes de interpretar uma passagem, vale perguntar: quem está falando? Para quem? Em qual situação? Qual é o contexto? Qual é o gênero literário? Como esse texto se relaciona com o restante da Escritura? E como a Igreja o compreendeu ao longo de sua Tradição?
Santo Agostinho, São Jerônimo, Santo Irineu de Lião, Santo Ambrósio, São João Crisóstomo e tantos outros nos mostram como a Igreja, desde os primeiros séculos, procurou compreender as Escrituras à luz da fé recebida dos Apóstolos.
Ler a Bíblia para encontrar Cristo: No final, interpretar corretamente a Bíblia não é apenas uma questão acadêmica. É uma questão de vida. Jesus não nos chama apenas a conhecer a Palavra, mas a escutá-la e colocá-la prática: “Felizes os que ouvem a Palavra de Deus e a põem prática” (Lc 11,28).
Por isso, a boa leitura da Sagrada Escritura envolve inteligência, fé, oração e conversão. Estudamos o contexto, respeitamos os gêneros literários, procuramos compreender a intenção do autor sagrado, lemos a Escritura sua unidade, escutamos a Tradição, permanecemos comunhão com o Magistério e permitimos que a Palavra transforme nossa vida.
A Igreja nos ensina, assim, a evitar dois extremos: de um lado, o fundamentalismo, que pode transformar qualquer expressão bíblica uma afirmação literal fora de seu contexto; de outro, uma leitura puramente subjetiva, na qual cada pessoa faz o texto significar apenas aquilo que deseja.
Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.
