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No dia 11 de outubro de 1962, o Papa João 23 abria de modo solene, o Concílio Ecumênico Vaticano II. Bento XVI, em recente pronunciamento, promulgou o Ano da Fé, para comemorar os cinquenta anos deste extraordinário evento, o mais marcante da Igreja Católica no século XX e um dos mais importantes de toda sua história quase bimilenar.

Referência dos Concílios da Igreja é sempre a assembleia apostólica de Jerusalém, ainda no início do Cristianismo, quando os apóstolos se reuniram para decidir sobre a questão da circuncisão e da validade da Lei mosaica, posta por Paulo e Barnabé (At 15). O que se decide em um Concílio Ecumênico vale para a Igreja inteira, ali representada pelos seus responsáveis maiores. Realizado em quatro sessões e no prazo de três anos, foi encerrado em 8 de dezembro de 1965, já sob o pontificado de Paulo VI. Foi o 21º Concílio da Igreja em sua história de 2000 anos. Decorrido meio século desde sua convocação, a Igreja põe-se a avaliar o caminho percorrido. Houve acertos e erros na interpretação e vivência do Concílio: os Papas tiveram o cuidado de dar a correta interpretação de seus textos e indicar o caminho a seguir para uma autentica renovação pessoal e comunitária da vida cristã.


O que pretendia o bondoso Papa João 23 ao convocar, em tempo recorde, um Concílio Ecumênico com mais de três mil participantes? Queria que a Igreja fizesse a sua parte para melhorar sua colaboração com toda a comunidade humana, que se esforçava em assegurar ao mundo paz verdadeira e, ao homem, um desenvolvimento digno e integral. Quis uma Igreja em diálogo com o homem de hoje, atenta aos “sinais dos tempos”(Mt 16,3), isto é, aos tempos novos, com seus desafios, oportunidades e problemas. João 23 queria que o Concílio levasse toda a Igreja e todos os seus membros para uma profunda conversão espiritual e ao crescimento da fé em Cristo, na fidelidade às inspirações e moções do Espírito Santo. Já o Papa Leão 13, no século 19, advertiu o distanciamento da classe operária, como também o afastamento do mundo moderno, como um todo, das fontes da fé cristã. No pontificado do Papa Pio 12 (1939-1958), movimentos de renovação, fortes e influentes, começaram a surgir no seio da Igreja: os mais importantes diziam respeito ao estudo da Bíblia e à celebração do mistério de Cristo e de sua salvação na Liturgia.


Brilhante intelectual e agudo observador, o Papa Pio 12 viveu num período conturbado da história humana: a ascensão do Nazismo, o alastramento de governos ditatoriais no mundo e uma Guerra Mundial, que esfacelou a Europa, como também o início do fim do colonialismo. O Papa sentiu claramente a necessidade da Igreja reaprender a dialogar com o mundo pelo crivo da modernidade. Eleito em 1958, João 23 surpreendeu a todos ao recolher tamanhos desejos e expectativas e os tornar realidade com a convocação do Concílio, que ele fez no dia 25 de janeiro de 1959. Seu objetivo era repensar e renovar os costumes do povo cristão e adaptar a disciplina eclesiástica às condições do mundo moderno. Na visão profética de João 23, o Concílio devia ser como “um novo Pentecostes”, ou seja, uma profunda e ampla experiência espiritual, que transformaria a Igreja de Cristo em um movimento espiritual, moderno e dinâmico, de modo a dar uma alma à humanidade de hoje, que procura a Deus “às apalpadelas”. “Sopro de inesperada primavera”, o Concílio foi um divisor de águas: a Igreja começou a olhar o mundo e sua complexa realidade com renovado otimismo e viva esperança.


Os 20 Concílios anteriores foram convocados com a preocupação de condenar heresias e definir verdades da fé. O Vaticano II teve, ao invés, a intenção de voltar a atenção da Igreja para os problemas sociais e econômicos, que afligem a humanidade e, sobretudo, dar uma resposta aos desafios pastorais, que o mundo de hoje lança à comunidade cristã. João 23, na solene abertura do Concílio, enfatizou que a Igreja não pretendia uma vez mais fazer listas de erros e condenações, como tantas vezes havia acontecido no passado, mas, apenas, queria revelar a todos a beleza e a riqueza de sua doutrina e apontar o rosto esplendido de Cristo no testemunho de seus Santos, como também usar o remédio da misericórdia e não mais o da severidade; enfim, queria mostrar ao mundo seu semblante maternal e acolhedor. João 23 não pretendia revogar ou modificar o depósito da fé, que a Igreja recebeu de Cristo (Mc 3,13-15; 1Tm 6,20; 2Tm 1,14) e que ele devia salvaguardar com zelo de pastor, mas sua intenção era que a Igreja pudesse adaptar sua mensagem à mentalidade e sensibilidade do mundo de hoje, para que a Boa Nova do evangelho fosse melhor entendida e vivida em toda a sua profundidade e vigor. Celebrar esse aniversário é, portanto, dar continuidade à visão profética do Papa João 23; é entender melhor o tempo em que vivemos; é se dispor a ter um papel mais positivo e participativo na evangelização; é ajudar enfim a humanidade de hoje a crescer nos valores autenticamente humanos e espirituais, para um convívio sereno e feliz entre todos os seres humanos.

 


Pe. Ernesto,
Paróquia São José –SAD-GO.
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